Por que com a melhora da qualidade de vida aumentou a expectativa de vida dos brasileiros?

Por que com a melhora da qualidade de vida aumentou a expectativa de vida dos brasileiros?

Em que:

EVSx: expectativa de vida saudável, que corresponde ao número médio de anos a serem vividos com saúde (livre de incapacidade funcional, livre de doenças crônicas ou com percepção da saúde boa) a partir da idade x;

nπx : prevalência da condição de saúde (livre de incapacidade funcional, livre de doenças crônicas ou com percepção da saúde boa) no grupo etário x a x+n;

nLx: pessoas-anos vividos de x a x+n, que corresponde ao total de anos vividos pela coorte no intervalo;

lx: probabilidade de sobreviver até a idade x.

Já as EVCI, EVCDC e EVSR foram obtidas subtraindo da expectativa de vida total, respectivamente, a EVLI, a EVLDC e a EVSB. Ademais, estimou-se a proporção de anos a serem vividos em dado estado de saúde pela razão entre o número de anos a serem vividos em cada uma dessas condições e o total de anos a serem vividos.

As tabelas de sobrevivência foram construídas separadamente para cada ano, sexo e estado de saúde. O número de anos vividos dentro de cada idade na tábua de vida foi distribuído segundo a prevalência de incapacidade funcional, doenças crônicas e percepção da saúde em cada grupo etário específico, pressupondo a mesma tábua de vida para todos os três grupos, ou seja, mortalidade não diferencial segundo indicador de saúde avaliado. A opção por estimar as prevalências por grupos quinquenais teve como objetivo minimizar possíveis erros de estimativas por idade simples.

Resultados

Para análise do comportamento das variáveis de saúde entre 1998 e 2008, foram obtidas as estimativas intervalares, com 95% de confiança, das prevalências em cada categoria de percepção de saúde e em cada uma das doenças autorreportadas, por sexo e grupos de idade. Quanto à percepção de saúde, observaram-se aumentos não significativos nas prevalências de saúde boa e muito boa para os homens em quase todos os grupos etários. Para as mulheres, as prevalências de saúde boa aumentaram significativamente. As prevalências de saúde regular tiveram comportamento aproximadamente estável entre os homens em todas as idades e reduções significativas para as mulheres nos três primeiros grupos etários. No outro extremo da escala de percepção de saúde, foram observadas reduções significativas nas prevalências de saúde ruim entre as mulheres em todas as idades.

No que se refere às doenças crônicas, observaram-se reduções estatisticamente significativas nas prevalências de doença de coluna ou costas, artrite ou reumatismo e doença renal crônica em todos os grupos etários para ambos os sexos. Para os homens, observaram-se reduções significativas nas prevalências de bronquite ou asma em quase todos os grupos etários. Já no caso das mulheres, reduções significativas foram observadas, também, nas prevalências de doença do coração e depressão (exceto para os dois últimos grupos etários). Em contrapartida, aumentos significativos foram observados para as prevalências de câncer, diabetes e hipertensão arterial, também em todas as idades e para ambos os sexos. As prevalências de cirrose, no caso dos homens, e de tendinite ou tenossinovite, no caso das mulheres, tiveram aumentos significativos.

Estimativas pontuais e intervalares para as prevalências de incapacidade funcional, doenças crônicas e percepção ruim da saúde, por sexo e idade, nos dois anos da pesquisa são apresentadas nas Tabelas 1 e 2. No geral, considerando as estimativas pontuais, as prevalências de incapacidade funcional, doenças crônicas e saúde ruim são maiores para as mulheres nos dois anos da pesquisa. As únicas exceções ocorrem nas prevalências de saúde ruim no grupo etário de 80 anos e mais, em 1998, e nos três últimos grupos de idade, em 2008. Já as estimativas intervalares para as prevalências de incapacidade e saúde ruim mostram que a desvantagem feminina não é estatisticamente significativa. Destaca-se, no caso das prevalências por doenças crônicas, que a desvantagem feminina é significativa em todos os grupos etários nos dois anos da pesquisa.

Tabela 1
Prevalências de incapacidade, doenças crônicas e saúde ruim para os homens por idade. Brasil, 1998 e 2008.

Tabela 2
Prevalências de incapacidade, doenças crônicas e saúde ruim para as mulheres por idade. Brasil, 1998 e 2008.

Sobre as diferenças nas prevalências por sexo, as reduções ou aumentos nas prevalências de 1998 para 2008 não foram estatisticamente significativas em qualquer grupo etário, em ambos os sexos.

As Tabelas 3 e 4 apresentam as estimativas da expectativa de vida total (EV), EVLI, EVSB e EVLDC por idade em 1998 e 2008, em termos absolutos e relativos, para homens e mulheres, respectivamente. Em 1998, ao completar 60 anos, as mulheres poderiam esperar viver, em média, 2,8 anos a mais que os homens. Já, em 2008, a sobrevida média das mulheres é de cerca de 3,2 anos. Essa maior sobrevida das mulheres também pode ser observada aos 70 e aos 80 anos de idade.

Tabela 3
Expectativa de vida total, livre de incapacidade funcional, com percepção de saúde boa e livre de doenças crônicas em termos absolutos e proporcionais para homens por idade. Brasil, 1998 e 2008.

Tabela 4
Expectativa de vida total, livre de incapacidade funcional, com percepção de saúde boa e livre de doenças crônicas em termos absolutos e proporcionais para as mulheres por idade. Brasil, 1998 e 2008.

Ao se decompor a expectativa de vida total em duas componentes, saudável e não saudável, considerando os indicadores incapacidade funcional e percepção de saúde, as mulheres apresentam um tempo médio maior de sobrevida ativa ou com boa saúde. Entretanto, apresentam também um tempo médio maior de sobrevida com incapacidade ou com saúde ruim. Considerando uma análise dessas componentes em termos proporcionais à expectativa de vida total, verificamos uma mudança de cenário entre 1998 e 2008, quando o estado de saúde é mensurado pelo indicador de percepção de saúde. Nota-se que a proporção do tempo vivido com boa saúde é maior para os homens em 1998 (aos 60 e aos 70 anos). Já, em 2008, o cenário é favorável às mulheres em todas as idades. Ao considerarmos os indicadores de incapacidade funcional e de doenças crônicas, o cenário é sempre favorável aos homens nos dois anos da pesquisa, em todas as idades.

Destaca-se certa similaridade nas estimativas da expectativa de vida saudável nas dimensões de percepção de saúde e incapacidade funcional. Nos dois anos, em todas as idades, em ambos os sexos, a parcela do tempo médio vivido com boa saúde é sempre maior que a parcela vivida com saúde ruim nos dois indicadores. Por outro lado, quando consideramos a presença de, ao menos, uma doença crônica como indicador do estado de saúde, observamos um cenário oposto. O maior tempo vivido na presença de, pelo menos, uma doença crônica reflete as altas prevalências dessas enfermidades entre os idosos.

O método de Sullivan combina informações de prevalências da condição do estado de saúde com mortalidade para estimação da expectativa de vida saudável. Embora os dados de mortalidade sejam obtidos com base em registros e censos populacionais, as prevalências da condição de saúde são provenientes de dados amostrais. Assim, ao se analisar a evolução nas prevalências de estado de saúde, seja qual for a dimensão ou o indicador utilizado, é importante avaliar, com rigor estatístico, se as mudanças observadas são significativas. Desse modo, levando-se, em conta, o tipo de planejamento amostral das PNADs de 1998 e 2008, foram obtidas estimativas pontuais e intervalares para as prevalências da condição de saúde nos três indicadores do estado de saúde.

Intervalos de 95% de confiança (IC95%) para as verdadeiras EVSB, EVLI e EVLDC foram estimados por sexo e idade para a população do Brasil em 1998 e 2008. Os resultados são mostrados na Figura 1. A primeira linha de gráficos mostra as estimativas pontuais e intervalares das EVSB, EVLI e EVLDC aos 60 anos de idade para homens e mulheres. A segunda e a terceira linhas de gráficos mostram as mesmas estimativas aos 70 e 80 anos, respectivamente.

Figura 1
Estimativas intervalares da expectativa de vida livre de incapacidade funcional (EVLI), expectativa de vida com percepção de saúde boa (EVSB) e expectativa de vida livre de doenças crônicas (EVLDC) por sexo e idade. Brasil, 1998 e 2008.

Observa-se que o aumento da EVSB É estatisticamente significativo, em todas as idades analisadas, tanto para homens quanto para mulheres, haja vista que não se observa uma sobreposição nas estimativas intervalares entre 1998 e 2008 em cada sexo.

Os aumentos da EVLI, por sexo, são significativos em todas as idades, exceto no caso da EVLI para as mulheres aos 80 anos em que, a rigor, as estimativas intervalares se sobrepõem. No caso da EVLDC, os aumentos observados de 1998 a 2008 não foram significativos para ambos os sexos, em todas as idades.

Observa-se certa similaridade no padrão de aumento, por sexo e idade, entre as estimativas da EVSB e da EVLI. Nos dois indicadores, as estimativas para as mulheres são mais elevadas que para os homens. Entretanto, no caso das estimativas da EVLDC, observamos exatamente o oposto.

Discussão

Este estudo procurou mensurar e comparar expectativas de vida saudável obtidas com base em diferentes conceitos de saúde e em dois momentos. Para tal, foram empregadas, separadamente, informações de percepção de saúde, incapacidade funcional e presença de doenças crônicas. De modo geral, o que se observa nos trabalhos que medem a expectativa de vida saudável é que não existe uma uniformidade, afinal, mesmo que a opção seja trabalhar com determinado indicador, como, por exemplo, incapacidade funcional, existem formas distintas para construí-lo. A opção por manter três tipos de indicadores na presente análise serve para ilustrar as diferenças e ampliar as possibilidades para a discussão de saúde do indivíduo idoso.

As diferenças encontradas entre o número de anos a serem vividos com saúde já eram esperadas. Afinal, dependendo do indicador utilizado para medir saúde, as prevalências podem variar consideravelmente 2222 Jette AL. How measurement techniques influence estimates of disability in older populations. Soc Sci Med 1994; 38:937-42.. No caso do presente estudo, os indicadores de percepção de saúde e incapacidade funcional mostraram resultados muito próximos ao estimar a expectativa de vida saudável para idosos, diferentemente do marcador doenças crônicas.

Pensando em saúde como ausência de doenças, pode-se verificar que o número de anos vividos livres de patologias era baixo, isso porque a prevalência de doenças crônicas entre os idosos é bastante elevada. Nas mulheres de 60 anos, por exemplo, as diferenças nas estimativas pontuais das EVBS e EVLI são quase cinco vezes maiores que a EVLDC.

Para Ramos 2929 Ramos LR. Fatores determinantes do envelhecimento saudável em idosos residentes em centro urbano: Projeto Epidoso, São Paulo. Cad Saúde Pública 2003; 19:793-8., no universo de saúde dos idosos, a ausência de doenças é privilégio de poucos, e o completo bem-estar pode ser atingido por muitos, independentemente da presença ou não de doenças. Segundo o autor, pouco importa saber que uma mesma pessoa é hipertensa, diabética, cardíaca e que toma remédio para depressão. O importante é que, como resultante de um tratamento bem-sucedido, ela mantém sua autonomia, é feliz, integrada socialmente e, para todos os efeitos, é uma pessoa idosa saudável. Nesse ponto de vista, as medidas de saúde de acordo com a funcionalidade e percepção de saúde poderiam ser consideradas mais adequadas.

No período analisado, as mulheres apresentaram maiores expectativas de vida, se comparadas aos homens, porém podem esperar viver um tempo maior com saúde ruim, independentemente do indicador utilizado para mensurar saúde. Isso corrobora estudos anteriores 1212 Camargos MCS. Estimativas de expectativa de vida com doenças crônicas de coluna no Brasil. Ciênc Saúde Coletiva 2014; 19:1803-11. , 1313 Baptista DBDA. Idosos no município de São Paulo: expectativa de vida ativa e perfis multidimensionais de incapacidade a partir da SABE [Dissertação de Mestrado]. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais; 2003. , 1414 Camargos MCS, Perpétuo IHO, Machado CJ. Expectativa de vida com incapacidade funcional em idosos em São Paulo, Brasil. Rev Panam Salud Pública 2005; 17:379-86. , 1515 Romero DE, Leite IC, Szwarcwald CL. Healthy life expectancy in Brazil: applying the Sullivan method. Cad Saúde Pública 2005; 21 Suppl 1:S7-18. , 1616 Camargos MCS, Machado CJ, Rodrigues, RN. Disability life expectancy for the elderly, city of São Paulo, Brazil, 2000: gender and educational differences. J Biosoc Sci 2007; 39:455-63. , 1717 Camargos MCS, Machado CJ, Rodrigues RN. Life expectancy among elderly Brazilians in 2003 according to different levels of functional disability. Cad Saúde Pública 2008; 24:845-52. , 1818 Camargos MCS, Machado CJ, Rodrigues RN. Sex differences in healthy life expectancy from self-perceived assessments of health in the city of São Paulo, Brazil. Ageing Soc 2008; 28:35-48. , 1919 Camargos MCS, Rodrigues RN, Machado CJ. Expectativa de vida saudável para idosos brasileiros, 2003. Ciênc Saúde Coletiva 2009; 14:1903-9. , 2020 Andrade FCD, Guevara PE, Lebrão ML, Duarte YAO, Santos JLF. Gender differences in life expectancy and disability-free life expectancy among older adults in São Paulo, Brazil. Womens Health Issues 2011; 21:64-70. , 2121 Agree EM. The influence of personal care and assistive devices on the measurement of disability. Soc Sci Med 1999; 48:427-43., que, mesmo utilizando medidas distintas para avaliar saúde, retrataram vantagem dos homens em relação à expectativa de vida saudável.

Estimativas das expectativas de vida livre de incapacidade e com percepção de saúde boa, obtidas pelo método de Sullivan com base nos dados da Pesquisa Mundial de Saúde, que foi realizada no ano 2003 com representatividade nacional, revelaram diferenciais por sexo que configuram um cenário similar ao deste estudo 1515 Romero DE, Leite IC, Szwarcwald CL. Healthy life expectancy in Brazil: applying the Sullivan method. Cad Saúde Pública 2005; 21 Suppl 1:S7-18.. Essa desvantagem feminina na expectativa de vida com incapacidade é persistente até mesmo em subgrupos populacionais com diferentes níveis de escolaridade 3030 Guedes GR, Camargos MCS, Siviero PCL, Machado CJ, Oliveira DR. Educational and sex differences in the functional disability life expectancy for the elderly: Brazil, 1998 and 2003. Cad Saúde Colet (Rio J.) 2011; 19:187-96..

A respeito da discussão sobre diferenças entre os sexos em relação à expectativa de vida saudável, podemos apontar algumas possíveis explicações. Primeiro, alguns estudos sugerem que as altas taxas de mortalidade masculinas em idades mais jovens poderiam influenciar a composição do grupo etário de homens idosos, em uma espécie de seleção. Nesse caso, se comparado ao grupo masculino de idosos, teríamos um grupo feminino mais heterogêneo, composto por um número maior de idosas frágeis, o que poderia refletir diretamente no número de anos vividos com saúde comprometida 1212 Camargos MCS. Estimativas de expectativa de vida com doenças crônicas de coluna no Brasil. Ciênc Saúde Coletiva 2014; 19:1803-11. , 1414 Camargos MCS, Perpétuo IHO, Machado CJ. Expectativa de vida com incapacidade funcional em idosos em São Paulo, Brasil. Rev Panam Salud Pública 2005; 17:379-86. , 1616 Camargos MCS, Machado CJ, Rodrigues, RN. Disability life expectancy for the elderly, city of São Paulo, Brazil, 2000: gender and educational differences. J Biosoc Sci 2007; 39:455-63. , 1717 Camargos MCS, Machado CJ, Rodrigues RN. Life expectancy among elderly Brazilians in 2003 according to different levels of functional disability. Cad Saúde Pública 2008; 24:845-52. , 1818 Camargos MCS, Machado CJ, Rodrigues RN. Sex differences in healthy life expectancy from self-perceived assessments of health in the city of São Paulo, Brazil. Ageing Soc 2008; 28:35-48. , 1919 Camargos MCS, Rodrigues RN, Machado CJ. Expectativa de vida saudável para idosos brasileiros, 2003. Ciênc Saúde Coletiva 2009; 14:1903-9..

A maior sobrevivência das mulheres, permitindo que elas alcancem idades em que são mais evidentes o surgimento de patologias crônicas e suas consequências, seria o segundo fator explicativo para essa diferença. Adicionalmente, existe uma discussão que sugere que as condições de saúde das mulheres idosas seriam reflexo de condições econômicas, sociais e culturais desiguais, em diferentes fases do ciclo de vida 3131 Zimmer Z. Active life expectancy and functional limitations among older Cambodians: results from a 2004 survey. New York: Population Council; 2005. (Working Papers, 201). , 3232 Perls T, Kunkel LM, Puca AA. The genetics of exceptional human longevity. J Mol Neurosci 2002; 19:233-8.. Cabe lembrar que, historicamente, as mulheres têm assumido o papel de cuidadora do lar e das crianças. Além disso, no mercado de trabalho, ainda persistem distorções salariais atribuídas, entre outros fatores, as distinções entre os gêneros na distribuição das diferentes ocupações, dotadas de status desiguais 3333 Barreto SM, Giatti L, Uchôa E, Lima-Costa MF. Gênero e desigualdades em saúde entre idosos brasileiros. In: Anais da Oficina de Trabalho sobre Desigualdades Sociais e de Gênero em Saúde de Idosos no Brasil. Ouro Preto: Núcleo de Estudos em Saúde Pública e Envelhecimento, Centro de Pesquisas René Rachou, Fundação Oswaldo Cruz/Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Minas Gerais; 2002. p. 59-69. , 3434 Goldani AM. Mulheres e envelhecimento: desafios para novos contratos intergeracionais e de gênero. In: Camarano AA, organizadora. Muito além dos 60: os novos idosos brasileiros. Rio de Janeiro: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; 1999. p. 75-113..

Finalmente, outra explicação que pode ser apontada para o diferencial desfavorável às mulheres seria o fato de que as mulheres, além de viverem mais, procuram mais os serviços de saúde e desenvolvem uma percepção muito mais aguçada em relação ao seu estado de saúde. Uma vez que as informações dessas pesquisas são, geralmente, entrevistas pessoais, é possível que as informações fornecidas pelas mulheres sejam, em média, mais precisas que as dos homens. É possível, ainda, que elas tendam a ter diagnósticos muito mais precoces e, portanto, vivem mais tempo com a doença e com restrições de atividade em relação aos homens.

Entre 1998 e 2008, os resultados mostraram que ocorreu, concomitantemente aos ganhos na expectativa de vida, um crescimento na EVSB em todas as idades analisadas e em ambos os sexos. Já nos aumentos observados na EVLI, os ganhos só não foram significativos para mulheres de 80 anos. Nesse período, as alterações na EVLDC não foram significativas para ambos os sexos, em nenhuma das idades analisadas.

Não obstante, algumas limitações do presente estudo devem ser consideradas. Primeiramente, a opção por utilizar o método de Sullivan não permite que possíveis mudanças nas taxas de mortalidade e nas condições de saúde sejam incorporadas às estimativas. Cabe lembrar que esse problema não é inerente ao método e sim à construção de tabelas de sobrevivências de período. Estudos anteriores suportam a utilização do método de Sullivan e têm demonstrado que esse é confiável, caso não existam mudanças repentinas nas condições de saúde e mortalidade 3535 Mathers CD, Robine JM. How good is Sullivan’s method for monitoring changes in population health expectancies? J Epidemiol Community Health 1997; 51:80-6.. Como o período utilizado é relativamente curto, acredita-se que as estimativas são confiáveis e podem ser utilizadas.

Outra importante limitação, ao se comparar as informações sobre prevalência de doenças crônicas entre as PNADs de 1998 e 2008, refere-se à mudança na pergunta entre as duas pesquisas. Na PNAD 1998, adotou-se a pergunta “Tem [determinada doença]?”. Já, em 2008, a pergunta foi alterada por “Algum médico ou profissional de saúde já disse que você tem [determinada doença]?”. De acordo com Lima-Costa et al. 3636 Lima-Costa MF, Loyola Filho AI, Matos DL. Tendências nas condições de saúde e uso de serviços de saúde entre idosos brasileiros: um estudo baseado na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (1998, 2003). Cad Saúde Pública 2007; 23:2467-78., existe certa pertinência nessa mudança dada a universalidade e a validade da pergunta feita em 2008. Ao responder que possuía determinada patologia, em 2008, esperava-se que o entrevistado tivesse um diagnóstico fornecido por um profissional de saúde, diferentemente de 1998, em que a pergunta era menos específica. Caso a diferença nas prevalências de doenças crônicas se devesse apenas à mudança na forma de perguntar, poder-se-ia supor que as prevalências dessas patologias reduziriam no período, já que a pergunta foi mais específica, mas isso não ocorreu. Uma provável explicação para o aumento nas prevalências de patologias crônicas é a existência de algum viés de seleção no acesso aos serviços de saúde em 2008 em relação a 1998. Ou seja, nesse caso, uma resposta positiva à pergunta em 2008 estaria correlacionada com o acesso aos serviços de saúde. Contudo, é preciso cautela ao analisar esses dados, e estudos completares são necessários para tal. Mesmo com essa limitação, fez-se a opção de manter as três medidas de expectativa de vida saudável para que o leitor possa decidir qual indicador utilizar, afinal, dependendo da situação, saber a proporção de anos vividos na presença ou ausência de doenças crônicas também é um dado interessante.

No que diz respeito à imprecisão nas respostas, é pouco provável que a informação de terceiros comprometa as análises feitas neste estudo. Nas informações sobre percepção de saúde e doenças crônicas, a proporção de informações fornecidas pela própria pessoa aumentou de 64% em 1998 para 71% em 2008, já a proporção de terceiros informantes moradores do domicílio diminuiu de 33% em 1998 para 26% em 2008. Por fim, somente 4% das informações de 1998 e 3% em 2008 eram de pessoas que não residiam no domicílio. Percentuais semelhantes foram verificados nas informações sobre incapacidade funcional, tanto em 1998 quanto em 2008.

Desse modo, observa-se que a maioria das informações é fornecida pela pessoa de referência ou morador do domicílio. Ademais, no que diz respeito às percepções sobre o estado de saúde e doenças crônicas, é possível que não haja muita discrepância entre a percepção do terceiro informante morador do domicílio e da pessoa de referência. Já no caso de incapacidade funcional, é menos provável ainda que se verifique muita diferença entre esses dois tipos de informantes. Ao se avaliar a incapacidade funcional, trabalha- se com a dificuldade ou inabilidade de realizar determinada tarefa. Trata-se de uma informação concreta, mesmo sendo fornecida por um informante, pois, afinal, esse informante saberá dizer se a pessoa de referência consegue ou não desempenhar aquelas atividades ou se possui dificuldade. No caso das AVD, a percepção pode ser facilitada, pois se tratam de tarefas básicas de autocuidado.

Além das limitações já destacadas, é importante frisar que a PNAD é uma pesquisa que não foi desenhada especificamente para acompanhar a saúde da população idosa. Por outro lado, a pesquisa viabiliza uma análise do número de anos a serem vividos com saúde em dois pontos do tempo, empregando três indicadores distintos.

Finalmente, retoma-se a uma pergunta que norteou este trabalho e faz parte do título: “Viver mais e melhor?”. Se considerarmos a percepção de saúde e a capacidade funcional, nesse período de dez anos (1998 a 2008), concluiu-se que, ao completar 60 anos, os brasileiros poderiam esperar viver mais e ter um número maior de anos com saúde.

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Por que a expectativa de vida da população brasileira aumentou ao longo do tempo?

O crescimento econômico do país, acesso à água tratada e esgoto, bem como aumento do consumo, foram alguns dos fatores que elevaram a expectativa de vida no Brasil. A esperança de vida dos brasileiros aumentou, isso segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Porquê do aumento da expectativa de vida?

As condições sociais também são importantes para o aumento da expectativa de vida. Lugares que possuem uma melhor condição, como taxas mais elevadas de saneamento básico entre as cidades, maior nível de educação, menor índice de violência e poluição, por exemplo, tendem a ter uma expectativa mais duradoura.

Quais fatores que contribuem para o aumento da expectativa de vida no mundo?

Entre os fatores que colaboram para esse aumento estão os avanços tecnológicos nas áreas da medicina e da farmácia, possibilitando remédios, vacinas, tratamentos e métodos de prevenção mais eficazes e a diminuição da taxa de mortalidade infantil.

Quais as causas e consequências do aumento da expectativa de vida?

Apesar de ter suas vantagens, o aumento da expectativa de vida também tem consequências devastadoras, entre elas está o crescente aumento do número de idosos e a incapacidade do governo em sustentar todos os aposentados, gerando a necessidade de um maior investimento na escolaridade, para que aumente a PEA (população ...